Agroflorestação: Outro jeito de fazer agricultura no Semi-Arido

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O que é Agrofloresta?


Agrofloresta é um termo que tem varios significados. Em muitos usos simplesmente quer dizer "plantio de especies florestais pelo homem" (o que causa confusão com a ideia de monoculturas de árvores). Não é definitivamente este o assunto a que esta postagem se refere. Aproximando-se do sentido pretendido chega-se a conclusão que agroflorestas são vários tipos de plantio onde há a presença de especies florestais, mas que de alguma forma, ou no tempo ou no espaço, ou ainda em ambos, estes plantios tem outras especies de carater não florestal. As possibilidades dentro do conceito são tão amplas que faz-se necessário buscar definições adicionais para cada tipo de agrofloresta ou padrão de manejo agroflorestal. Podem ser chamados também de agrossilvicultura, existindo ainda o termo agrossilvipastoril.



O Diagrama criado pelo analog forestry network para comparar diferentes usos da terra (acima) mostra um pouco a diferença de definição na língua inglesa para várias modalidades de agrofloresta


Os sistemas podem ser sequenciais, como no caso da agricultura itinerante tradicional. Baseada no uso agrícola temporário de terras recém desflorestadas seguido de um longo pousio no qual a floresta reaparece. A sucessão florestal acontece naturalmente durante o pousio e a área aos poucos passa por transformações graduais no seu funcionamento ecológico. O desenvolvimento das capoeiras rumo à matas secundárias ocorre paralelamente ao desenvolvimento do solo, que por sua vez associado a ciclagem de nutrientes, o que acaba proporcionando a recuperação de seus atributos naturais de fertilidade, estrutura e estabilidade. Este tipo de agrofloresta foi usado por milenios e ainda hoje exerce papel importante em algumas regiões, principalmente na Amazônia. Mas atualmente não só aparecem experiencias bem sucedidas que ajudam a superar este paradigma mas também carecem áreas florestais onde seja possivel esta pratica, tanto por questões legais em locais ainda florestados quanto por ausencia de floresta resultado da história de conversão massiva de uso da terra. Por isso a extensão rural alternativa e a assistencia técnica agroecológica tem focado em formas de fomentar o uso de áreas degradadas como cenario para as agroflorestas espaciais, onde as diferentes espécies dos diferentes grupos sucessionais se misturem no espaço ao mesmo tempo.

Neste sentido existem inúmeros tipos de sistemas agroflorestais. As versões tradicionais relativamente dispersas pelo mundo tropical, entretanto em com o componente florestal relativamente contido, são principalmente representadas pelos quintais agroflorestais, nos quais intuitivamente se pratica a policultura de uso multiplo, e pelos sistemas silvopastoris tradicionais, por vezes até sobrepostos aos anteriores. Já os sistemas agroflorestais funcionais, um tanto condicionados à presença de produtos de grande aceitação no mercado, apresentam diferentes espécies de árvores colocadas em benefício de culturas econômicas. Estas incluem o café sombreado com leguminosas, os sistemas cabruca usados na produção cacaueira e de maneira inversa os plantios de espécies temporárias (por exemplo o milho, feijão, mandioca, abóbora e etc.) introduzidos para diminuir o custo de plantio de espécies arbóreas, principalmente madeiras para corte ou de areas de restauração florestal (chamados Taungya). Existem os silvipastoris tecnificados que exibem pastos sombreados com especies adubadoras ou com especies de uso economico, cumprindo a função de sombreamento e aumentando o potencial de geração de renda por unidade de área. Estendendo-se um pouco pode-se até considerar que o uso de cercas vivas arboreas ou quebra-ventos pode ser manejados de forma agroflorestal.




Quintal agroflorestal tradicional no planalto de Ibiúna:


Banana com árvores pioneiras da floresta.



As Agroflorestas mais complexas são aquelas que podem ser chamadas genericamente de Agroflorestas Sucessionais, pois apresentam como padrão um caminho de complexificação crescente ao longo do tempo. Ainda assim existem diferentes tipos e nomes, entre eles os Sistemas Agroflorestais Biodiversos e os Sistemas Agroflorestais Regenerativos Análogos. Em inglês o termo para estes sistemas seria Analog Forestry. Com a natureza como guia, a sustentabilidade e o equilíbrio ambiental se ampliam de maneira proporcional à complexidade do sistema. Por isso existem grandes distancias entre os tipos mais simples de sistemas agroflorestais (não eliminando seus méritos relativos à suas determinadas finalidades) para os mais complexos. Estes mesmos tipos simplificados podem apresentar variações mais complexas e sustentáveis quando construidos e manejados com maior diversidade de especies.



Agrofloresta Sucessional Biodiversa da Família Ferreira, Parati, RJ, Brasil:

Qualidade de Vida, Segurança Alimentar, Geração de Renda e Conservação da Natureza

O trabalho dentro do que se chama agrofloresta análoga ou sucessional, parte de um principio de observação da natureza. Por isso, mesmo em biomas diferentes onde não há floresta natural propriamente dita, sempre há referencias onde encontrar a maior complexidade e diversidade de interações entre os organismos, e deste conjunto com o meio físico (sua distribuição e caracteristica de seus condicionantes naturais dentro de cada paisagem). Assim, mesmo em uma área como a Caatinga, com um clima proprio e alta biodiversidade de espécies adaptadas ou endêmicas, os princípios de analogia ao sistema natural permitem criar um sistema produtivo, diversificado e integrado à paisagem, como mostram inúmeros exemplos nos sertões do nordeste do Brasil.


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Os diferentes sistemas agroflorestais são formas altamente sustentáveis de sequestrar o CO2e. Propiciam também diversificar a produção de alimentos, sem aumentar a área produtiva. Possibilitam o acesso a produtos florestais (nativos ou não) sem representar perdas para os ecossistemas naturais. Tem o potencial de aumentar a renda diretamente, mas certamente aumentam a renda indiretamente, por representarem diminuição da necessidade de aporte externo.

Além dos diferentes parametros que podem mudar positivamente com a sua prática, ainda representa uma chance para o resgate da auto-estima e o reconhecimento do papel do agricultor familiar como protagonista da sua produção e guardião dos recursos naturais. Mudam inclusive a forma com que os agricultores se relacionam com a natureza de maneira geral, o que aumenta a chance de sobrevivencia de paisagens naturais inseridas no mozaico territorial rural. A extensão rural e/ou Assistencia Técnica agroecológicas possibilitam rediscutir as politicas tanto ambientais quanto agricolas de uma só vez e ajudam na luta pela discussão da cidadania no campo.

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